Cultura
e Arte
Ao
falar de cultura, é possível fazer um corte no sentido
amplo do termo e referir-se apenas a alguns aspectos da produção
humana, ligados às diferentes práticas artísticas:
pintura, dança, música, teatro, literatura, cinema,
vídeo, escultura, entre outras. Essa produção
cultural, além do caráter simbólico que toda
cultura tem, existe independentemente das relações
utilitárias e funcionais, ou seja, podemos dizer que elas
são inúteis para a nossa vida prática. Um
vaso grego, por exemplo, extrapola o valor utilitário de
objeto para guardar água, vinho ou óleo. Esse vaso
era feito para aparecer, para figurar entre as coisas do mundo,
apoderando-se da atenção do espectador, comovendo-o,
revelando significados internos que sobrevivem a cada geração.
É o reflexo de uma civilização que prezava
a simetria, a beleza ideal, o culto aos deuses, a perfeição
do fazer artístico e artesanal.
Nesse
sentido, então, nem tudo é obra de cultura e é
necessário estabelecer distinções entre o
que é cultura e o que é entretenimento ou diversão.
Uma
obra de arte nos traz um novo conhecimento de mundo. Esse conhecimento
não é lógico e racional, mas intuitivo, concreto
e imediato, na medida em que nos faz compreender um sentimento
de mundo. Voltando ao exemplo do vaso grego, podemos perceber
que ele nos transmite o sentimento de um mundo simétrico,
proporcional, razoavelmente estável e seguro. Já
uma obra de arte contemporânea, como as anamorfoses de Regina
Silveira, em que os objetos do cotidiano são apresentados
como sombras deformadas dos objetos que existem no mundo real,
nos traz o sentimento de um mundo desordenado, torto, inseguro.
Um exemplo mais próximo, o videoclipe, revela a velocidade
da vida contemporânea (com mudanças bruscas de cena),
a fragmentação e a falta de sentido aparente.
A
obra de arte, para ter esse efeito sobre nós, apresenta
um modo novo de ver a realidade, porque ela não se refere
necessariamente ao que de fato existe. A arte não representa
o mundo como ele é, mas como poderia ser. Para isso, ela
inova em termos de materiais – por exemplo, uma escultura
hoje pode ser construída a partir da luz e não de
materiais tradicionais como a madeira, a pedra ou o metal; ou
uma obra "desenhada" com cortes sobre a tela, em vez
da tinta. Inova em temas, inova em estilos e linguagens, cria
novos códigos para ser fiel à sua função
de evocar um sentimento de mundo.
A
arte não tem a obrigação de explicar nada,
não é um discurso lógico e, nesse sentido,
não explica nada por conceitos. Ela nos faz sentir, por
meio de uma obra concreta, uma possibilidade do mundo entrevista
pelo artista. Ela nos traz a compreensão de certos aspectos
do mundo.
Um
produto para o entretenimento e diversão, ao contrário,
é repetitivo, só confirma o que já sabemos,
ajuda-nos a passar o tempo de uma forma agradável, sem
que precisemos engajar nossa sensibilidade, nossos sentimentos
ou nossa inteligência na sua interpretação.
Ele reforça os valores da cultura em sentido amplo: sabemos
de antemão que os maus serão punidos, os bons recompensados,
a personagem principal não vai morrer no fim da história,
e todos os problemas serão resolvidos a contento, a fim
de não provocarem angústias e dúvidas a respeito
da vida e do mundo. Esses produtos apaziguam, não criam
polêmicas, não nos obrigam a mudar de atitude ou
modo de ser e pensar. Eles são construídos respeitando
e reafirmando os códigos da cultura dentro da qual são
criados. Por isso mesmo, têm o poder de entreter e divertir.
Texto
original: Profa. Dra. Maria Helena Pires Martins
Edição: Equipe
EducaRede
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